Aventuras de El Bulli
Aqui há dias, estava eu como é meu hábito ao sábado de manhã a ler o Expresso na cozinha do Ferran Adria - gosto de ver o rapaz cozinhar e aqui para nós, ele precisa das minhas ideias... - quando vi uma notícia que me deixou pasmado: "Prostituição de Leste diminui 30% em 2008"
- Ó Ferran, tu já viste isto?! Então mas está tudo louco...? Querem acabar com o putedo de qualidade...
- Tragus, é a crise... Toca a todos.
- A todos?! Tem juízo pá... A mim não me tocou ainda nada... Só aquela moldava de ontem... Ouve lá, aquele barzito que me levaste ontem... é todo catita.
- Sim, é o melhor aqui de Girona.
- Pois... E a moldava também era bem Girona...
- Girona?!
- Sim... É a mistura entre ser giraça e boa de c...
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- Olha, é o microondas...
- Microondas?! Então mas tu cozinhas com microondas?! Que desilusão...
- Claro... É a lasanha para o meu almoço... É do Capitão Iglo.
- Do Capitão Iglo?! Mas que raio...
- Só há no mundo um cozinheiro melhor que eu... O Capitão Iglo.
- Ó Ferran, aqui para nós: o Capitão Iglo não existe... É só uma marca.
- O quê?!?! O Capitão Iglo não existe?!?! Mas... E eu que todos estes anos o vi como o meu guru... Durante anos e anos procurei os segredos da sua receita de bacalhau à brás... Diz-me que não é verdade, Tragus!! Diz-me !!!
- Digo-te o quê?
- Que o Capitão Iglo existe... Diz-me que ele é real...
- Pronto... pronto. Estava a brincar, ele é real.
- Ah bom... Eu sabia.
- Só que foi detido no seguimento do processo Casa Pia... Ou tu achavas que aqueles anúncios com crianças num navio nos mares do sul iam passar despercebidos à Maria José Morgado?
- Irra... Essa mulher vai a todas...
- Pois vai. Mas já estou a ficar aqui com uma larica... o que é que há para comer?
- Bom... Estou aqui a acabar um Parfait de Foie embebido em Roquefort com mel das Astúrias e maracujá critalizado. Se quiseres...
- Estás a fazer o quê?! Isso não me dá nem para a cova de um dente... Faz-me mas é uma tosta mista. E rápido.
- Uma tosta mista, Tragus?! Eu não faço essas coisas... Eu sou o melhor cozinheiro do mundo. Sou o mago da cozinha.
- Pois és... E hoje vais ser o mago da tostinha... ou já te esqueçeste quem é que te emprestou dinheiro para montar esta espelunca a que chamas restaurante?
- Pronto pronto... Já não está cá quem falou. Eu faço-te a tosta.
- Óptimo... E põe uma dose extra de queijo... Tu não és propriamente conhecido pelas doses avantajadas...
- Caramba, que ideia que as pessoas tem de mim...
- O quê? Por dizerem que não fazes comida numa cozinha, mas sim num laboratório...?
- Não é de de laboratório... é molécular.
- Ok. Mas olha que a fome com que eu estou preciso de muito mais que uma tosta molécular...
- Pronto. Aqui está...
- O que é isto?!
- É a tua tosta mista.
- Tosta mista?! Eu nem sei se isto é para comer ou um centro de mesa...
- Então mas... é sofisticado.
- Não digas disparates... Tu fazes estas merdas muito rococós, mas sempre que saio daqui fico cheio de fome...
- Mas é uma experiência gastronómica...
- Experiência gastronómica é a dobrada que eu como aos sábados ao jantar para compensar o facto de vir para aqui ler o expresso aos sábados de manhã. Ganha juízo.
- Mas eu sou o mago da cozinha...
- Ai ai ai ai. Mas tu queres parar com essa conversa do mago... Pareces o Mourinho das panelas...
- E sou mesmo.
- Está calado. Tu sabes lá o que é comer... Olha, quando foi a última vez que comeste uma Posta Mirandesa?
- Ó Tragus, eu não gosto de peixe...
- Está calado seu estúpido... Posta Mirandesa é carne e da boa, estás a ouvir?
- Assim como o petit fillet mignon marinado em infusão de azeite de huesca e armagnac que eu faço?
- Não digas disparates... Uma posta mirandesa é meia vaca na brasa.
- Meia vaca?!
- Sim. Tens uma vaca, cortas ao meio... A parte da esquerda é uma posta mirandesa e a parte da direita... também é uma posta mirandesa.
- Isso não me parece ser muito sofisticado.
- Lá estás tu!! Mas quem é que disse que isto era suposto de ser sofisticado... O que é que a sofisticação tem a ver com comida? Sofisticação é... olha, é usar papel higiénico preto... como aquele da Renova.
- Já usei é muito giro.
- Mas que estúpido... Não é giro, é sofisticado. Nunca mais aprendes.
- ...
- Bom... bom. Estou a ver que tenho que te ensinar tudo. Deixa lá aí o microscópio e veste um casaco, vens comigo dar uma volta.
Lá peguei no Ferran e levei-o até ao aeroporto de Barcelona, onde o falcon do primeiro ministro esperava por mim na pista. Isto agora com o Sócrates é mais fácil de conseguir o avião do que com o Santana Lopes. Só tenho que dizer que sou da Mota Engil e já está... Dão me logo o avião para as mãos e nem estrebucham.
- Agora senta-te aí quietinho no teu lugar que isto vai arrancar.
- Arrancar?! Esta carcaça? Eu pensava que este avião era uma peça de museu... Mas isto é seguro?
- Calma, que quem faz a manutenção do Falcon é a Air Luxor...
- A Air Luxor, mas isso não é aquela companhia portuguesa que faliu há uma série de anos?
- Exacto.
- Então mas... e é seguro?
- Seguríssimo. Por arames... mas é seguríssimo.
- Ai meu Deus... Acho que vou vomitar.
- É isso, é isso... Vomita. Que para o que vais comer hoje, bem que precisas de espaço no estômago.
Primeira paragem, foi em Madrid.
- Cá estamos. Madrid.
- Ah... Tragus, já percebi. Trouxeste-me a Madrid para irmos almoçar ao Santceloni do meu amigo Santi Santamaria. Que agradável... Mas ainda assim deixa-me avisar-te que ele só tem 2 estrelas michelin e eu tenho 3.
- Vá. Vamos apanhar um táxi. Olha ali está um... Táxi!! Boa tarde é para as Portas do Sol se faz favor.
- O quê? Mas o Santceloni é na Castelhana... Estás enganado.
- Está calado e cala-te. Pronto, já chegamos. Paga aí ao senhor que eu não tenho trocos comigo.
- Então mas onde é que está esse restaurante tão bom? É de um jovem e promissor chef de cozinha...? Eu adoro os jovens e promissores chefes de cozinha, especialmente daqueles que pagam uma pipa de massa para estagiar comigo... Como aquele vosso compatriota, o José Avillez... enquanto lá esteve comigo aprendeu metade dos meus segredos.
- Metade? Porquê só metade..?!
- Aprendeu a metade do ter que pagar bem... Que foi o que ele teve de pagar pelo estágio. Agora a metade do aprender a fazer boa cozinha é que está quieto ó preto...
- Mas olha que não se safou mal, está lá no Tavares Rico.
- Está rico?! Epá... se calhar devia ter-lhe pedido mais pelo estágio.
- Não é isso... Está no Tavares Rico em Lisboa. É o nome do restaurante onde ele está.
- Ah bom... Ok. Então e onde é que está esse tal restaurante a que me trazes?
- Está aqui. É este à nossa frente.
- Este?! Mas isto chama-se... Ab... Abu.. Abuelo.
- Pois.. É o Abuelo. Um dos melhores sítios para picar em Madrid.
- Mas isto é... eu já uma vez li o nome destes sítios numa revista... é uma... como é que se chama? Ai... ajuda-me... já sei. É uma tasca!! É isso tasca...
- Exacto. Vamos entrando. Olá boa tarde, boneca serve-nos aí 2 doses de gambas.
- Gambas?! Como em Souflet de camarão com crocante de queijo gruiere e tempero de café de Bali que eu costumo fazer?
- Não. Como em gambas al ajillo... Toma. Come e cala-te.
- Uhm.
- Gostas?
- Não sei. Isto está a escaldar... Mas não é mau. Se lhe juntasse aqui um pouco de creme de beterraba escandinava e umas trufas negras era capaz de passar como primeiro prato.
- Ó homem, come lá isso... Carmenzita tira aí duas cañas.
- Mas... cerveja? Eu nunca bebi isto...
- E já agora tira aí mais uma dose de camarão... desse maiorzito. Esse mesmo... Que maravilha, olha para isto.
- Então, afinal é assim que é o camarão antes de estar descascado?
- Pois é...
- E como é que eu lhe tiro a casca?
- É assim... Vais tirando o que está a volta, arrancas a cabeça e depois comes o resto...
- Ah!! Então por isso é que eu oiço falar em "Operação Camarão": tiras a cabeça e comes o resto... Eu nunca tinha visto um camarão com casca, como é que eu podia saber?
- Estamos sempre a aprender.
- E o que é que eu faço com as cascas?
- As cascas?! As cascas é para o chão..
- Para o chão?! E posso cuspir também?
- Cuspir não... Mas estou a ver que já estás a entrar no espírito tascóide... Ou então, não estás é habituado a beber cerveja.
- E que mais tragus? Que é que vamos comer agora? É agora que vamos comer a posta mirandesa? A meia vaca na brasa...
- Melhor, Ferran. Anda comigo, vamos pagar e vamos apanhar um táxi... Toma, está aqui a conta. Paga tu, já sabes que eu não tenho trocado.
- 12 euros?! Nunca pensei que fosse possível entrar num sítio para comer e sair de lá pagando só 12 euros...
- Táxi!!! Já parou... Entra Ferran. Diz boa tarde ao senhor.
- Boa tarde.
- Não é isso... É em castelhano.
- Ah... Buenas tardes.
- Olhe é para a Plaza de Tirso de Molina se faz favor...
- " Sempre que brilha o sol naquela praia..."
- Peço desculpa, mas se o seu amigo está bêbado vou ter que lhes pedir para sairem do carro...
- Não não... Ele não está bêbado, está é contente... É que ele é um ferrenho benfiquista e o Benfica ganhou ao Olhanense para a taça da Liga...
- "E ninguém pára o Benfica, e ninguém pára o Benfica.. Alé Ou!!"
- Epá, cala-te que se não ainda arranjamos problemas... Pronto já chegamos, este pago eu. Isto também é mesmo aqui ao lado das Portas do Sol.
- Oba oba... Tanto mulherio...
- Ó Ferran, são empregadas domésticas peruanas...
- E então, vais dizer que é mau?!
- Bom... quer dizer... uma vez conheci uma peruana que enfim... segundo ela, era descendente dos incas e vá lá vá lá... mas regra geral são um bocado reles.
- Então e o que é que viemos aqui fazer?
- Ah... Pois. Vamos ali aquele 1º andar.
- 1º andar?! Uhm... Cheira-me a putedo reles...
- Não... Isso são as peruanas. Vamos ali para comer. No 1º andar fica o Asador El Frontón, um marco na culinária madrilenha...
- Na "CU linária" madrilenha?!
- Não, culinária de comer...
- Comer o quê?
- Carne.
- Lá está... Peruanas, confere.
- Cala-me essa matraca e anda lá embora. Ferran, abre lá a porta e sobe as escadas...
- Xiii... Isto é alto prá caramba!!
- Mas onde é que tu aprendeste a dizer isso?!
- Foi ontem... Lá no bar de copas. Havia lá uma brasileira...
- Aí sim? E porque é que eu não a vi... E que mais te ensinou ela a dizer em brasileiro?
- Ensinou-me a dizer: "Você é um gato... É muito querido." - só não sei o que quer dizer, não percebo português.
- Também não sou eu que te vou explicar, mas dou-te um conselho, se algum dia entrares em algum bar na Chueca não digas isso a nenhum gajo. Pronto, deixa-me lá arranjar uma mesa. "Pepe, como estas? Una mesa para los 2".
- "Besame, besame mucho..."
- Don Tragus, esse seu amigo está com um ar embriagado...
- Não não Pepe... Ele está é feliz porque lhe disseram que vocês aqui tinham o melhor chuleton de buey de Espanha e arredores.
- Uma posta mirandesa!! Eu quero uma posta mirandesa!!
- Uma quê?!
- Não ligues Pepe. Manda é vir chuleton em grande quantidade aqui para a gente. Ferram anda para aquela mesa.
- Don Tragus, o chuleton é como de costume?
- Claro Pepe, tchunq tchunq na grelha e siga para a mesa...
- Certo.
- Quem diria, Tragus. De noite comemos as vacas e de dia comemos o boi! Viva España!!"
- Está calado Ferran que já estás a dar muita cana...
- Noite/Vaca Dia/Boi, faz sentido... Eh... Pepe manda vir a vinhaça!!
- Don Tragus, o seu amigo está claramente embriagado.
- Não está não... É catalão... Os catalães são assim... festivos.
- Aqui está o chuleton.
- Olha para isto Ferran, isto é que é comer!!
- Deixa cá ver... Epá, mas o que é que eu ando a perder!! Mas que maravilha!! Sabes com que é que isto acompanhava bem?
- Com um legumes salteados à la marseillese e vinagre balsâmico da Dalmásia?
- Tás parvo ou quê Tragus?! Isto ia bem é com batata frita!! Pepe, batata frita!!!
- Já vai, já vai...
O almoço continuou por mais 2 horitas. O El Bulli fartou-se de comer chuleton, bebeu uma bela vinhaça e no fim ainda mamou uma crema catalana, só para fazer juz às origens.
Ao fim da tarde regressamos ao aeroporto de Barajas onde estava o falcon e seguimos para Lisboa. A mesa no Solar dos Presuntos estava marcada para as 21h. Ainda bem que em Portugal é menos uma hora...
Beijos e abraços do vosso
Tragusbolis
